Tu sangra o mundo pelas beiradas e pisa em artérias com tuas botas pesadas.

Tu me faz cair e é tudo tão vermelho no teu aperto. Teu toque forte me desgasta e as tuas palavras são um arrancar brusco de asas que eu não posso suportar. Eu vi em ti o que eu queria – e precisava – ver, mas não o que tu é. Eu queria um band-aid pra almas feitas em pedaços, um analgésico pra dor de ser vazia, um chá que me recolhesse do meu silêncio. Eu queria uma ponte que me salvasse do meu abismo e me levasse até o outro lado. Mas tu é tão selvagem. Tu me mata no escuro, teu caos me cega e me faz pó. Eu buscava um abraço de poesias serenas, mas tu me quebra os ossos de forma amarga. Eu tenho essa vontade de esconder minha pele cheia de hematomas, mas tu é minha fratura exposta. Eu tentei fazer de ti minha âncora, mas tu é mais pesado que o meu barco e me puxou junto pra baixo. Afundei.

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Tu é do mundo e eu sou só.

Eu preciso de estabilidade e isso tu não pode me dar. A gente não encaixa. Isso é como uma criança tentando, pela milésima vez, colocar a peça redonda no buraco quadrado e, mesmo vendo que não adianta, que nunca vai dar, ela não desiste – como nós não desistimos. Mas não importa quantas tentativas sejam feitas, a peça redonda jamais vai entrar no lugar que não foi feito pra ela. É inútil, é perda de tempo e tempo eu já tô cansada de malgastar. Tu desequilibra diante às minhas oscilações, enquanto tudo que eu busco em ti é um alicerce sólido. Tu ama o mundo e eu amo o meu quarto. Tu é das noites, das festas, da tequila, enquanto eu sou do café forte e do cobertor quente. Tu fuma pra acompanhar os amigos, eu fumo pra preencher com a fumaça a ausência que tu deixa quando sai. Tu nunca soube se doar, ceder. Não desconsidero as tuas inúmeras tentativas de se modificar e se moldar à mim, aprecio isso, aliás. Mas nunca funcionou e eu não posso te fazer ser algo que tu não é. Se eu tô indo embora, não é porque o que eu senti por ti mudou, mas sim porque eu cansei de dar murro em ponta de faca e de bater na mesma tecla quebrada por tanto tempo. Eu quero alguém que junte meus cacos e me deixe inteira de novo, e nós sabemos que isso tu não consegue fazer.

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Amor morre de fome.

Já não servem os restos que tu me entrega de ti. Eu cansei de ser quem junta os teus pedaços e te conserta quando ninguém te quer quebrado. Vai embora, aqui já não tem nada teu, não tem mais nada pra ti. Aproveita e leva contigo teu descaso e tuas frases planejadas. Mas vai mesmo, não faz como das outras vezes, já tô cheia dessas tuas idas e vindas e, das tuas vindas, eu nem faço mais questão. Não me liga daqui a uns meses, como tu já tá tão acostumado a fazer, tu sabe que eu sempre cedi ouvir a tua voz, tu sempre soube me fazer ceder, mas isso não vai mais funcionar. Pelo menos dessa vez, seja sincero contigo e comigo, me deixa caminhar sem te colocar como um bloqueio me impedindo de seguir. Eu sou tão melhor sem ti e é uma pena o quanto eu demorei pra perceber isso, pra perceber que eu sou inteira demais pra me contentar com as tuas metades e que teu jeito vago nunca valeu o esforço. Essa história de que amor não morre é ilusão. A morte do amor não é súbita, ela é lenta e a doença é degenerativa. Meu amor tá em fase terminal.

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Masoquismo sentimental.

Entre meus devaneios contínuos, me ocorrem, às vezes, uns dez ou quinze minutos de razão. É estranha a forma com que, quando a vida se torna uma quase ininterrupta insensatez, os momentos de lucidez parecem vagos e irreais, perdemos grande parte do senso de certo e errado, real e irreal. Recobrando a consciência, percebo que isso tudo não faz sentido, a retalhação interior não faz sentido. Não é como se a vida tivesse acabado por conta de um amor mal vivido, mas por que eu não consigo enxergar perspectiva? Coração quebrado é só uma figura de linguagem, mas por que dói tanto? Somos seres individuais, em teoria, autossuficientes, mas por que, sem ele, parece que falta um pedaço de mim? Eu preciso me recompor permanentemente e enxergar a vida como algo físico e só, afinal, é isso que ela é – ou deveria ser. Mas, de certa forma, eu não quero parar de sentir.

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Bimini Twist

Eu não sei como começar. Eu não sei por onde começar. Tá uma desordem tão grande aqui dentro, que eu me sinto no meio de um pós-guerra que deixou destruição por todo canto e, nas minhas mãos, a missão de reconstruir e limpar tudo. O ambiente pesa e paira a confusão, o gosto é salgado e metálico, a visão é turva. Eu não sou auto-suficiente pra conseguir ajeitar tudo sozinha. Eu preciso de ajuda. Da tua ajuda. E eu não sei como pedir. Tu fechou a porta na minha cara e abriu a porta dos fundos pra outra pessoa entrar. Por mais que eu tente pular alguma das tuas janelas, vocês dois aí dentro já ocuparam todo o espaço que tinha e não tem mais nenhum canto sobrando pra mim. Ela te preenche, né? Se eu invadir, tu vai me mandar embora de novo, vai sim. Por isso, eu prefiro ficar aqui, do lado de fora mesmo, observando vocês dois pelo vidro embaçado do canto da tua porta da frente. Às vezes, eu aperto a campainha, bato de punho cerrado, até grito teu nome, te chamando pra me socorrer, mas tu nunca ouve. Meus apelos são todos sufocados pelo som da tua risada junto com a dela. Ela é como uma tinta nova, mais bonita e com uma cor mais viva, que chegou na tua casa e se sobrepôs à mim e ao meu cinza opaco. Tu gostou. Ela fez morada. Às vezes, eu me sinto como aqueles cachorrinhos que são obrigados a dormir do lado de fora quando o dono compra um melhor, outras vezes, me sinto como um daqueles indigentes que batem na porta pedindo um pedaço de pão, mas nunca ganham nada. O meu pão é o teu carinho. Eu tento abrir o portão e caminhar pra longe, mas é como se uma corda me puxasse forte de volta. Eu tento desatar e não consigo. Já te falei sobre o quão desprezível tu foi, não é mesmo? E volto a falar. Volto porque nem falando 1000 vezes eu vou me sentir satisfeita. Tu jogou uma bomba atômica com poder de destruição em massa dentro de mim e me colocou fora, correu pra longe, ficou alheio ao caos. Nem sequer oferece ajuda pra reconstrução, tu não se importa se eu vou conseguir reerguer tudo isso de novo, isso não te afeta mais. Tu poderia, ao menos, ter tido o cuidado de não me prender tão firmemente, aí então, eu poderia sair daqui em busca de outros caminhos, mas tu nos ligou de uma forma profunda, mesmo que sem querer e mesmo se mantendo distante. Eu tô tentando romper a corda, porque o nó é forte demais pra ser desfeito.

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Ela é sincera contigo como tu deveria ter sido comigo?

Isso, desfila por aí segurando a mão dela, aproveita essa atmosfera bonita que envolve o teu mundo agora, faz dela a tua morada. Sente com ela tudo que eu sentia contigo, aprecia esse enigma que sufoca, prende a respiração, chega a machucar e mesmo assim continua sendo estranhamente bom. Tu tá assustado, não é mesmo? Eu também estava e tu me abraçou como se segurasse o mundo e me fez crer que tudo estava bem, que aquilo fluía de ambas as partes. Eu acreditei em ti. Eu me doei pra ti. Só pra ti. Eu desfoquei o mundo ao meu redor e realcei a tua imagem. O que tu fez foi desprezível, cara. Pode usar da tuas estratégias e frases bem elaboradas pra tentar te defender, mas tu sabe bem que teu jogo foi baixo, sujo e mesquinho. Eu expus meus medos, minha carência e minha fragilidade, te mostrei meu corte mais profundo e tu veio com o esparadrapo pra fazer o curativo. Eu pensei que fosse sarar, esperei que tu fosse minha cura, mas dias depois tu chegou com um olhar gelado e uma faca afiada. Tu abriu ainda mais o meu machucado. Tu cravou em mim o ferro com toda a tua força, não se importou sobre o quão insuportável seria a dor. E tá sendo. Ela não passa e não tem morfina que ajude a aliviar. Mas me conta, como vocês se conheceram? Ela foi o motivo do teu desdém comigo? Ela é limpa de todos os dramas, crises e insuficiências que eu tenho? Ela já conhece a tua mãe? É ela que escolhe o sabor da pizza? Ela também se encaixa perfeitamente em ti pra dormir? Eu nem vou perguntar se ela é melhor do que eu, se é mais bonita, mais engraçada, se o toque é melhor e essas inutilidades todas porque a tua escolha já deixa essas respostas explicitamente claras. Porém fique sabendo que eu sempre ofereci pra ti o que tinha de melhor aqui dentro, o que eu tinha de mais bonito. Eu sei que não era muito e que o meu “bonito” era, no máximo, aceitável, mas é que quando se apanha muito do mundo o nosso interior se torna um pouco sórdido, sabe? Acho que se em algum momento eu errei contigo foi tentando acertar. Talvez tu tenha se assutado com a minha pressa em levar as coisas, minha entrega completa e minhas declarações pateticamente sentimentais e fora de contexto. Desculpa por ser tão problemática e despejar um barril de expectativas em cima de ti quando tu não merecia. Por favor, diz que sente saudade de mim, nem que seja um pouquinho, nem que seja só naquela hora da madrugada em que ela vai dormir porque tem que levantar cedo e tu fica acordado olhando pro teto sem ter alguém pra conversar. Diz que eu signifiquei algo na tua vida, mesmo que seja uma coisinha pequena. Eu nunca quis sentir sozinha.

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Eu não consigo desatar.

A chuva lá fora não chega nem perto do temporal que tá aqui dentro. Eu já não consigo mais dormir. Eu só penso. Caralho, como dói pensar! Eu queria branquejar a mente pra não ficar imaginando ou revivendo situação nenhuma, queria poder entrar em um coma profundo por uns 10 ou 20 anos e só voltar à vida quando essa desordem que tá aqui conseguisse se alinhar. Confesso que sinto um pouco de inveja dos doentes mentais, aqueles que subsistem sem a menor percepção do que se passa ao redor. É perturbador esse silêncio externo da madrugada. A ausência do som só é quebrada pelos pingos batendo forte no telhado de zinco, pela minha respiração pesada e pelo tic tac desse maldito relógio. Não existe no (meu) mundo nada mais maçante do que esse perverso barulho insistindo em me lembrar, a cada segundo, que o meu tempo tá acabando. A vida tá passando. Eu posso entortar os ponteiros com a mão pra aumentar o meu prazo? Tic tac, mais um segundo perdido. O que eu fiz até agora? Se minha pulsação parasse, que legado eu deixaria? Eles nem sequer poderiam fechar os olhos e dizer “pelo menos viveu feliz”. Aliás, eles quem? Eu não tenho ninguém. Eu tenho vontade de conquistar, mas eu não tenho ânimo pra isso. Eu quero caminhar mas esse muro gigante de problemas imposto à minha frente me barra. Pra cada ânsia de fazer, eu tenho mil motivos pra renunciar. A consciência me amarra as mãos e me impede de prosseguir.

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